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Amor na era dos aplicativos
Geral - 12/09/2016

Por Alexandre Bianquini do Amaral, Bianca Kirklewski, Herculano Baptista, Helena Carvalho Mega, Larissa Lopes e Victor Matioli, da Agência AUN/USP

As relações humanas, e principalmente os mecanismos de relacionamento, invariavelmente se modificam com o tempo. Os vínculos amorosos não fogem à regra. A evolução do mundo digital encurtou as distâncias, inundou o mercado de possibilidades e aproximou as pessoas.

O Tinder (maior aplicativo de pareamento do mundo) exibe em seu site que mais de 10 bilhões de combinações já foram formadas, com mais 26 milhões acontecendo diariamente. Por um lado, a eclosão dos sites e aplicativos de pareamento reformou os padrões de relacionamento. Por outro, suscitou questionamentos sobre a fluidez e profundidade dos laços construídos através destes mecanismos.

Thiago de Almeida, psicólogo e mestre pelo Instituto de Psicologia da USP (IP-USP), por exemplo, acredita que “vivemos a era do amor líquido, dos relacionamentos digitais, da facilidade na comunicação e nas relações”. Segundo ele, a abundância de pretendentes e agilidade com que se obtêm informações sobre os pares fragiliza a formação de elos duradouros: “A acessibilidade às redes sociais faz com que se conheçam mais pessoas e as relações tornem-se mais fáceis, menos comprometidas”.

Almeida acredita que as possibilidades praticamente inesgotáveis tornam o próprio processo de aproximação entre as pessoas superficial. “A ordem é conhecer sempre mais e mais pessoas até encontrar aquela que vai nos interessar”, completa.

Realidade vs Expectativa

Ainda sobre este processo de “seleção” de parceiros, Jaroslava Varella Valentova, professora do IP-USP, compara os relacionamentos virtuais e os reais. Ela aponta uma diferença clara e muito importante que segrega os dois processos: nos encontros presenciais, primeiramente as pessoas se conhecem para depois captar informações sobre o outro. Nos virtuais, acontece justamente o aposto: o parceiro é selecionado com base em suas características e só depois disso um encontro é marcado.

Outra diferença, segundo Jaroslava, se dá na confiabilidade das informações divulgadas nos aplicativos. Nos meios digitais, é fácil ocultar alguns fatos ou distorcê-los para influenciar o par. “Só que não é tão fácil mentir pessoalmente, porque a maioria da comunicação é não-verbal. E controlar os gestos, a mímica, é quase impossível”, conclui a professora.

Apesar de uma parcela considerável das pessoas que usam este tipo de aplicativo estar procurando relações pontuais, muitas buscam relacionamentos sérios e duradouros. Passada a fase inicial de aproximação entre os usuários, a eficácia dos serviços é questionada sobre a formação de casais que permaneçam juntos.

Cláudia Prioste, especialista na relação entre os adolescentes e a internet (o seu livro "O adolescente e a internet: laços e embaraços no mundo virtual", foi recém-lançado pela Edusp) e doutora pela Faculdade de Educação da USP (FE-USP), ressalta que a possibilidade de arrumar novos parceiros faz com que as pessoas se dediquem menos aos relacionamentos já consolidados. Segundo ela, “na primeira dificuldade, já existem inúmeras outras opções para substituir determinado alguém. Isso deixa as pessoas mais indecisas, pensando que sempre podem ter algo melhor. Assim, não investem na relação, qualquer frustração já basta”.

Por outro lado, muitas histórias de casais com longos relacionamentos — e que se conheceram através destes aplicativos — estão disponíveis na internet. O próprio site do Tinder disponibiliza uma série de relatos de casais formados entre usuários do serviço.

Entre os que buscam novas experiências e relacionamentos pontuais, as histórias de sucesso são ainda mais volumosas. Um estudante de matemática revela, por exemplo, como o Tinder foi o responsável pela sua primeira experiência sexual. “Entrei no aplicativo quando estava no segundo ano do ensino médio, por causa de indicações de amigos, que disseram que era divertido. Uma vez, dei combinação com uma menina, a gente começou a conversar e marcamos de sair. Depois de quatro encontros, rolou”, conta.

Perfil

Segundo dados fornecidos pelo próprio Tinder, os homens são maioria no aplicativo, somando 62%. Quanto a faixa etária, pessoas com idade entre 25 e 34 anos são majoritárias e representam 45% dos usuários, seguidos pelas de 16 a 24 anos, que compõem 38% do total.

Um dado curioso é que as mulheres passam mais tempo no programa (em média 8,5 minutos, contra 7,2 dos homens), mas escolhem três vezes menos parceiros: apenas 14% frente aos 46% dos homens.

Outro fato é que apenas 54% dos usuários são solteiros (30% são casados e 12% estão em um relacionamento). Segundo o psicólogo Thiago de Almeida, as pessoas “acreditam que virtualmente é possível conhecer outras pessoas, sem que sintam estar traindo seus parceiros”.

Um grande problema de aplicativos como o Tinder é o relativo anonimato. Qualquer pessoa pode criar uma conta e estruturá-la da maneira que julgar conveniente, o que permite, por exemplo, que perfis falsos sejam criados e usados para assediar outros usuários.

Para Jaroslava, uma possível solução para o problema é a cobrança de taxas para usar os serviços. Segundo ela, isso limita e desestimula a ação dos assediadores, além de garantir que somente pessoas realmente interessadas em encontrar parceiros se registrem.

Deu match

Jaroslava lembra que estes sistemas não segregam as minorias LGBT, que podem selecionar pares compatíveis com sua orientação sexual.

Justamente com este intuito de aproximar pessoas com características semelhantes, diversos aplicativos têm sido criados: LGBTs, evangélicos, pessoas com mais de 40 anos, obesos, nerds e outros grupos específicos já têm redes voltadas a eles.

Um caso interessante é o do Vinder, criado para que pessoas veganas e vegetarianas possam se conhecer. Segundo a criadora do aplicativo, Carolinne Pinheiro, formada em Gestão de Políticas Públicas pela USP, existe uma grande demanda para estes serviços em alguns grupos restritos. “Percebemos que grande parte dos usuários são universitários e tem idade entre 19 e 24 anos”, explica. Carolinne ainda conta que, logo quando o aplicativo foi criado, recebeu uma proposta de compra, mas recusou. “Depois do boom inicial, agora já com dois sócios, recebemos a segunda proposta de aquisição”, complementa.

Outro ponto benéfico deste tipo de software é a inserção social de pessoas extremamente tímidas e retraídas.

A utilização dos aplicativos de pareamento pode ser positiva para estas pessoas, já que, segundo Cláudia Prioste, “o ser humano, pela repetição de experiências, vai criando formas de satisfação. Quanto mais tempo eles ficam isolados, mais difícil fica para eles se inserirem de volta na vida social”.

A psicóloga elucida que alguns homens passam grande parte de sua vida sem saírem de casa e absolutamente afastados do convívio social. Este comportamento configura a chamada Síndrome de Hikikomori e, segundo ela, “a tendência atual dos pesquisadores é achar que esta síndrome tem uma relação direta com a cultura digital”.

Mistério

Com os mais diversos objetivos, as pessoas usam aplicativos de pareamento. E não vão parar de usar. Os efeitos práticos desta mudança de hábito social ainda não estão claros nem para os desenvolvedores, nem para os especialistas. De qualquer forma, eles concordam em uníssono que se trata de uma renovação de método para atingir um mesmo fim.

Jaroslava lembra que os relacionamentos afetivos são complexos e não podem ser explicados por um algoritmo. “As pessoas acham que sabem o que querem no parceiro, mas a verdade é que a escolha não é consciente. O amor ainda é um mistério”, finaliza.

 

(Foto: Getty Images/reprodução/divulgação)

 
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